Às vezes, a frase que mais dói não é “eu estou mal”.
É:
“Eu sinto falta de mim.”
Sinto falta daquela pessoa que existia antes de tudo ficar tão pesado. Não porque ela fosse perfeita, nem porque todos os dias fossem bons, mas porque havia coisas que simplesmente faziam parte de mim.
Eu gostava de algumas coisas.
Tinha vontade de sair, de conversar, de rir de alguma bobagem, de ouvir uma música e realmente prestar atenção nela. Havia momentos em que eu cuidava de mim sem precisar pensar muito sobre isso.
Hoje, algumas dessas coisas parecem distantes.
Não aconteceu de uma hora para outra. Foi acontecendo aos poucos, quase sem que eu percebesse.
Primeiro deixei de fazer uma coisa que gostava.
Depois comecei a recusar alguns convites.
Fui deixando mensagens para responder depois.
Passei a preferir ficar quieto.
Algumas pessoas talvez tenham pensado que eu havia mudado. E eu realmente havia mudado. Só não sabia explicar exatamente o que estava acontecendo.
Até que um dia percebi que não estava apenas deixando coisas para trás.
Eu estava deixando partes de mim também.
E existe uma tristeza muito particular em perceber isso.
Porque não é simplesmente sentir falta de uma atividade, de um lugar ou de determinadas pessoas.
É sentir falta da maneira como você se sentia quando ainda conseguia encontrar prazer nas pequenas coisas.
É olhar para uma fotografia antiga e reconhecer seu rosto, mas sentir que aquela pessoa parece estar muito distante.
Às vezes eu me pergunto:
“Onde foi parar aquela pessoa que eu era?”
E durante muito tempo achei que precisava encontrá-la.
Como se eu tivesse que voltar exatamente ao passado para conseguir ficar bem novamente.
Mas talvez não seja assim.
Talvez eu não precise voltar a ser quem eu era.
Talvez eu precise descobrir quem posso ser daqui para frente.
Porque a depressão pode mudar muitas coisas dentro da gente. Pode fazer aquilo que antes parecia simples se tornar difícil. Pode tirar a disposição, o interesse, a espontaneidade e até a vontade de participar da própria vida.
Mas isso não significa que tudo aquilo que eu perdi está perdido para sempre.
Talvez algumas coisas voltem.
Talvez outras não voltem da mesma maneira.
E tudo bem.
Talvez eu volte a gostar de determinadas músicas, mas descubra outras.
Talvez eu volte a sair, mas escolha lugares diferentes.
Talvez eu volte a rir das mesmas coisas.
Ou talvez eu descubra um novo motivo para sorrir.
Talvez eu não seja exatamente a mesma pessoa.
E talvez isso não seja uma tragédia.
Porque existe uma diferença entre voltar a ser quem eu era e voltar a sentir que minha vida também pertence a mim.
É isso que eu quero.
Não quero recuperar uma versão perfeita de mim.
Quero recuperar, pouco a pouco, a capacidade de me reconhecer.
Quero voltar a cuidar de mim sem sentir que estou fazendo uma obrigação.
Quero voltar a experimentar pequenas coisas sem exigir que elas imediatamente me façam feliz.
Quero conseguir olhar para um dia comum e perceber que ainda existe alguma coisa ali que vale a pena ser vivida.
Talvez o começo seja pequeno.
Tomar um banho com calma.
Abrir a janela.
Escutar uma música.
Conversar com alguém.
Preparar algo que gosto.
Sair um pouco de casa.
Ou simplesmente levantar da cama em um dia em que levantar parece difícil.
Pode parecer pouco para quem olha de fora.
Mas quem conhece a depressão sabe que, às vezes, o pequeno também é uma conquista.
E talvez eu esteja entendendo uma coisa que demorei muito para perceber:
Eu não desapareci.
Ainda estou aqui.
Existe uma parte de mim que, mesmo cansada, ainda deseja encontrar um caminho.
Uma parte que ainda observa o mundo.
Que ainda sente.
Que ainda espera.
E talvez seja justamente essa parte que eu precise escutar agora.
Não para voltar ao passado.
Mas para começar, devagar, a conhecer a pessoa que estou me tornando.
Talvez eu ainda não saiba quem ela é.
Talvez eu ainda esteja aprendendo.
Mas não preciso ter todas as respostas hoje.
Posso começar pequeno.
Um dia de cada vez.
Uma escolha de cada vez.
Um pouco de cuidado de cada vez.
E quem sabe, em algum momento, eu olhe para mim novamente e perceba que aquela frase já não dói tanto.
Porque talvez eu não precise mais dizer:
“Eu sinto falta de mim.”
Talvez eu possa finalmente dizer:
“Eu estou começando a me encontrar.”
Se você se sentir à vontade, deixe aqui algumas palavras sobre o que está vivendo. Talvez sua história seja exatamente o que outra pessoa precisava encontrar hoje. 🤍
