Como a Depressão Afeta o Trabalho e a Identidade Profissional

Como a Depressão Afeta o Trabalho e a Identidade Profissional

A depressão não fica do lado de fora quando entramos no trabalho.

Ela pode nos acompanhar até a mesa, para dentro de uma reunião, durante uma conversa com um colega e até mesmo para casa depois de um dia que parecia interminável.

Às vezes, por fora, ninguém percebe.

A pessoa chega no horário, responde quando alguém pergunta alguma coisa, tenta cumprir suas tarefas e até sorri quando é necessário.

Mas, por dentro, existe uma batalha silenciosa acontecendo.

Concentrar-se pode se tornar difícil.

Uma tarefa simples pode parecer enorme.

Tomar decisões pode exigir uma energia que simplesmente não está disponível naquele momento.

A vontade de conversar desaparece.

A motivação diminui.

E aquilo que antes era realizado quase automaticamente começa a exigir um esforço enorme.

Talvez você já tenha sentado diante do computador olhando para uma tarefa e pensado:

“Por que eu não consigo fazer isso como antes?”

Talvez tenha cometido um erro que normalmente não cometeria.

Talvez tenha esquecido alguma coisa importante.

Talvez tenha precisado de mais tempo para concluir uma atividade.

E, depois disso, veio aquela voz cruel dentro da cabeça:

“Eu não sirvo mais para isso.”

É assim que a depressão pode começar a atingir também a nossa identidade profissional.

A pessoa deixa de enxergar apenas uma dificuldade momentânea e começa a acreditar que existe algo errado com ela.

Mas existe uma diferença enorme entre estar enfrentando uma doença que afeta seu funcionamento e ser uma pessoa incapaz.

Você não é incapaz porque está enfrentando depressão.

Você está passando por uma condição que pode afetar sua energia, concentração, sono, memória, disposição e maneira de enxergar a própria vida.

E isso pode refletir no trabalho.

Não significa que você perdeu seus talentos.

Não significa que deixou de ser inteligente.

Não significa que tudo aquilo que você aprendeu desapareceu.

Significa que, naquele momento, você pode estar precisando de cuidado.

E talvez uma das coisas mais dolorosas seja perceber que aquilo que antes trazia segurança começa a trazer medo.

O trabalho, que costumava representar independência, pode passar a representar cobrança.

O salário, que antes significava tranquilidade, pode começar a parecer uma obrigação impossível de alcançar.

A segunda-feira chega e o coração aperta.

O domingo termina e a ansiedade começa.

Você olha para o relógio esperando o horário de ir embora.

E, mesmo depois de chegar em casa, a mente continua presa às preocupações do dia.

“Será que perceberam que eu não estou bem?”

“Será que estou rendendo menos?”

“Será que vão me mandar embora?”

“E se eu não conseguir outro emprego?”

“Como vou pagar minhas contas?”

Esses pensamentos podem se transformar em um ciclo doloroso.

Quanto mais medo sentimos de perder o emprego, maior fica a ansiedade.

Quanto maior a ansiedade, mais difícil pode ser se concentrar.

Quanto mais difícil fica trabalhar, maior pode ser a culpa.

E quanto maior a culpa, mais a nossa autoestima pode diminuir.

A depressão pode fazer você acreditar que é o problema.

Mas você não precisa transformar uma fase difícil em uma condenação contra si mesmo.

Você está enfrentando dificuldades. Você não é a dificuldade.

Se a depressão fez você se afastar do trabalho, reduzir o ritmo, pedir uma pausa ou até perder uma oportunidade profissional, isso não apaga tudo aquilo que você construiu antes.

Uma fase não consegue apagar uma história inteira.

Você continua sendo a pessoa que aprendeu.

A pessoa que tentou.

A pessoa que trabalhou.

A pessoa que enfrentou responsabilidades.

A pessoa que ajudou outras pessoas.

A pessoa que desenvolveu habilidades ao longo dos anos.

Tudo isso continua dentro de você.

Talvez hoje você não consiga acessar toda essa força.

Mas ela não deixou de existir.

E existe outra coisa importante que precisamos lembrar:

o nosso valor como ser humano nunca deveria depender da nossa produtividade.

Vivemos em uma sociedade que muitas vezes nos ensina a medir nosso valor pelo quanto produzimos, pelo cargo que ocupamos, pelo salário que recebemos ou pelo sucesso que conseguimos mostrar.

Mas você é muito mais do que isso.

Você não é apenas o seu crachá.

Não é o seu salário.

Não é a quantidade de tarefas que consegue realizar em um dia.

Não é a promoção que recebeu ou deixou de receber.

Não é uma demissão.

Não é um currículo.

E não é uma fase profissional difícil.

Você é uma pessoa.

E uma pessoa merece cuidado mesmo quando não consegue produzir como gostaria.

Se a depressão está interferindo no seu trabalho, procure ajuda profissional. Conversar com um psicólogo ou médico pode ser um passo importante para compreender o que está acontecendo e encontrar formas adequadas de tratamento e acompanhamento.

Você não precisa esconder seu sofrimento para provar que é forte.

Às vezes, a verdadeira coragem está em admitir:

“Eu não estou conseguindo sozinho e preciso de ajuda.”

Isso não é vergonha.

É cuidado.

E, se chegar o momento em que você precisar diminuir o ritmo, afastar-se temporariamente ou reconstruir sua trajetória profissional, tente não enxergar isso como o fim.

Pode ser apenas uma pausa necessária para cuidar de algo que também merece atenção: você.

Se o desemprego vier depois disso, não permita que ele destrua a imagem que você tem de si mesmo.

As contas são reais.

As preocupações são reais.

A necessidade de encontrar trabalho também é real.

Mas a sua dignidade continua intacta.

Você pode procurar oportunidades sem transformar cada resposta negativa em uma prova de que não é bom o bastante.

Pode atualizar seu currículo.

Pode aprender algo novo.

Pode pedir ajuda.

Pode conversar com alguém de confiança.

Pode recomeçar.

E recomeçar não significa que todo o esforço anterior foi perdido.

Você leva consigo sua experiência, seus conhecimentos e tudo aquilo que a vida ensinou.

Talvez você precise encontrar um caminho diferente daquele que imaginou.

E tudo bem.

Nem todo caminho precisa ser igual ao plano que fizemos anos atrás.

Às vezes, a vida nos obriga a diminuir a velocidade antes de encontrarmos uma nova direção.

Por isso, se hoje a depressão está afetando seu trabalho, tente não olhar para si mesmo com crueldade.

Olhe com compreensão.

Você já está carregando bastante peso.

Não precisa acrescentar a culpa de acreditar que deveria conseguir fazer tudo perfeitamente.

Faça o que estiver ao seu alcance.

Cuide da sua saúde.

Procure apoio.

Respeite seus limites.

E, quando tiver condições, dê um pequeno passo.

Depois outro.

Não é necessário resolver toda a sua vida em um único dia.

Você não precisa provar o seu valor através da produtividade.

Seu valor já existe.

Antes do primeiro emprego.

Antes do primeiro salário.

Antes de qualquer cargo.

E continuará existindo mesmo durante os períodos em que você precisar parar e cuidar de si.

Talvez hoje você esteja cansado demais para acreditar nisso.

Então guarde estas palavras para outro dia:

Uma fase profissional difícil não define a sua história.

Uma demissão não define a sua capacidade.

A depressão não define quem você é.

E o desemprego também não.

Você continua sendo alguém com talentos, sonhos, sentimentos e possibilidades.

Talvez agora você esteja apenas tentando sobreviver a uma fase complicada.

E tudo bem.

Não se cobre por enxergar o futuro inteiro.

Cuide do hoje.

Resolva aquilo que puder.

Peça ajuda para aquilo que não conseguir carregar sozinho.

E, acima de tudo, não abandone a pessoa que existe dentro de você enquanto tenta reconstruir a sua vida profissional.

Porque, antes de ser funcionário de qualquer empresa, você já era alguém.

E continuará sendo.

Seu emprego pode mudar.

Sua profissão pode mudar.

Sua situação financeira pode mudar.

Mas o seu valor não precisa mudar junto com nenhuma dessas coisas.

A tempestade profissional pode ser longa.

Pode assustar.

Pode fazer você duvidar de si mesmo.

Mas ela não precisa ser o fim da sua história.

Continue.

Mesmo devagar.

Mesmo com medo.

Mesmo sem saber exatamente qual será o próximo caminho.

Um passo de cada vez.

Você ainda tem muito para viver, aprender, reconstruir e conquistar.

E, principalmente, você ainda tem a si mesmo.

Não permita que a depressão faça você esquecer o seu próprio valor.