Eu também achei que o CAPS era lugar de “louco”

Durante muito tempo, eu pensei que a depressão era apenas uma fase ruim. Achava que bastava ter força de vontade, ocupar a cabeça e seguir em frente. Até que chegou um momento em que eu percebi que não estava a conseguir fazer isso sozinha.

Eu estava a sofrer. Chorava, sentia ansiedade, sentia-me sem valor e, em alguns dias, até as coisas mais simples pareciam difíceis demais. Mas, além de tudo isso, havia uma coisa que tornava tudo ainda mais complicado: a vergonha de admitir que eu precisava de ajuda.

O preconceito e o medo de pedir ajuda

Quando fui encaminhada para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), a minha primeira reação foi rejeitar a ideia. Eu tinha preconceito. Pensava que o CAPS era lugar de “louco” e que, se eu aceitasse aquele encaminhamento, estaria a admitir que havia alguma coisa muito errada comigo.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto esse pensamento me prejudicou. Eu demorei para aceitar que precisava de ajuda. E acredito que essa resistência fez com que eu demorasse mais para receber o cuidado de que, naquele momento, eu tanto precisava.

Não estou a contar isto para culpar ninguém e muito menos para dizer que todas as pessoas terão a mesma experiência que eu. Estou a contar porque talvez exista alguém a ler estas palavras que esteja a pensar exatamente como eu pensei.

  • Talvez você tenha recebido um encaminhamento e esteja com vergonha.
  • Talvez esteja a esconder o que sente da sua família.
  • Talvez esteja a dizer para todo o mundo que está tudo bem enquanto, por dentro, está a desmoronar.
  • Talvez esteja a thinking: “Eu não sou louco. Não preciso disso.”

Eu entendo. Porque eu também pensei assim.

A realidade do processo

Hoje estou a fazer acompanhamento profissional e continuo a enfrentar os meus dias. Existem dias melhores, existem dias difíceis e existem momentos em que tenho recaídas. Às vezes choro. Às vezes sinto ansiedade. Às vezes aquela sensação de inutilidade volta.

Mas existe uma diferença importante: agora eu sei que não preciso de enfrentar tudo sozinha.

E foi justamente por isso que decidi criar este espaço. Não sou psicóloga. Não sou psiquiatra. Não tenho uma fórmula para ensinar ninguém a sair da depressão. Sou apenas uma pessoa que está a viver o seu próprio processo e que decidiu falar sobre ele.

Quero conversar sobre aquilo que muitas pessoas sentem, mas têm vergonha de contar. Quero falar sobre pedir ajuda, sobre o medo, sobre a vergonha e sobre as recaídas. Quero falar sobre aqueles dias em que levantar da cama parece uma batalha, mas também sobre as pequenas vitórias.

Porque talvez uma pequena vitória para alguém seja simplesmente conseguir tomar um banho, sair de casa, conversar com alguém, voltar a fazer alguma coisa de que gostava ou procurar ajuda pela primeira vez. E isso também merece ser reconhecido.

O começo de uma nova caminhada

Se você chegou até aqui porque está a passar por algo parecido, quero que saiba uma coisa: você não precisa de ter vergonha de procurar ajuda.

  • Procurar ajuda não faz de você uma pessoa fraca.
  • Aceitar que não está a conseguir sozinho não significa que você perdeu.
  • E buscar tratamento não significa que você é “louco”.

Significa que você está a tentar cuidar de si.

Eu ainda estou a aprender. Ainda existem dias difíceis. Ainda tenho muito caminho pela frente. Mas hoje eu prefiro caminhar um dia de cada vez. E se este blog conseguir fazer uma única pessoa vencer a vergonha e procurar a ajuda de que precisa, então tudo isto já terá valido a pena.

Se você também está a lutar, fique por aqui. Talvez a gente possa aprender, juntos, que pedir ajuda não é o fim da nossa história. Pode ser o começo de uma nova caminhada.


Se você está a passar por um momento difícil e precisa de conversar agora, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito no Brasil através do número 188 ou pelo site cvv.org.br. Em Portugal, pode ligar para a Linha SOS Voz Amiga através do número 21 354 45 45.

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